De Nada Sirve ou a pequena história de um rock argentino

moris

Aquela viagem para Santiago aconteceu aos dezenove anos de idade e começou logo depois que terminei o ensino médio quando eu ainda não tinha a mínima ideia do que fazer de minha vida adulta. Eu morava em Porto Alegre e as confusões psicológicas de um adolescente de classe média não eram vistas exatamente como um problema na minha família. Desde a infância quando tios começavam com perguntas bobas do tipo “o que você vai ser quando crescer?”, meus pais sempre deixaram claro que eu teria liberdade e algum tempo para escolher a profissão.

Os problemas começaram quando resolvi ser músico e de certa forma isso produziu uma crise familiar dentro de casa. O Brasil vivia anos de sucessivas crises econômicas e inflação descontrolada e a pergunta fatal passou a ser: vai ganhar dinheiro como?

Eu tinha passado a maior parte do ensino médio dedicado ao violão e ao movimento estudantil e acho que isso serviu para convencer meus pais de que eu precisava viajar para conhecer coisas novas sejam elas quais fossem. Meu pai estabeleceu então uma regra simples e disse que me ajudaria com algum dinheiro na partida, e mandaria a passagem de volta caso necessário, mas eu tinha que me virar para pagar as contas da estrada porque ele não iria sustentar vagabundagem.

Tudo acabou dando certo e em poucas semanas eu estava dentro de um ônibus para Santiago do Chile carregando uma mochila, um violão e um pedaço de papel que uma amiga tinha me passado com um endereço na rua Licenciado Las Peñas.

A casa era uma república e nunca soube ao certo quanta gente morava ali dentro mas fiquei amigo de dois estudantes de artes e outro do Instituto Pedagógico que estavam envolvidos nos protestos contra a ditadura de Pinochet. Era uma casa térrea, construída com tijolos de adobe, um pequeno jardim e uma edícula nos fundos, onde morava o proprietário beberrão e um cachorro vira-lata além de três enormes pés de maconha.

Ao contrário do que acontecia em Porto Alegre, onde uma jovem boemia já estava nas ruas respirando alguma liberdade, o Chile de 1984 ainda vivia em plena ditadura militar e a única diversão noturna possível era beber em casa com amigos e conversar sem fazer muito barulho. As noites eram tensas e no som da casa rodavam sem parar coletâneas de fitas cassete misturando Pink Floyd, Bob Dylan, Stones e música latina.

O rock ainda era uma espécie de código secreto entre iniciados e a música preferida de quase todos na casa era De Nada Sirve, de Moris, que tinha se transformado numa espécie de hino existencialista daqueles dias. Um silêncio gelado se formava cada vez que ouvíamos os primeiros acordes do violão e logo em seguida tudo pegava fogo. O rock argentino entrava em nossas veias e nunca mais me esqueci daquela melodia.

Apesar de ter nascido em Santiago quase todos daquela turma me chamavam de brasileño, não só porque eu tinha chegado do Brasil mas principalmente porque tocava um violão meio batucado que todos gostavam e parecia dificílimo para eles.

Um dia estávamos atirados na grama do parque Forestal quando um cara que se chamava Carlos me passou o violão e fez uma espécie de desafio pedindo que eu tocasse De Nada Sirve. Como eu não conhecia os acordes acabei fazendo uma versão de improviso e todos ao redor começaram a cantar junto. Aquilo deixou todo mundo louco e depois daquela versão me tornei o guitarrista callejero da turma.

No final do ano voltei a Porto Alegre para fazer o vestibular e consegui entrar na universidade. Com o tempo me arranjei profissionalmente e com isso desapareceram as preocupações de meus velhos mas o mais importante é que tive a sorte de quase sempre estar envolvido com música e o mesmo violão que me acompanhou naquela viagem ainda circula pela minha casa em São Paulo e recentemente passou a dormir no quarto de meu filho.

Como naquela época não consegui decorar a letra, durante mais de vinte anos perguntei para qualquer argentino que cruzasse na minha frente se ele conhecia De Nada Sirve. A resposta sempre foi negativa e ninguém tinha a mínima ideia da música ou de seu autor.

Isso foi até 2005 quando uma amiga argentina telefonou dizendo que tinha conseguido o CD com o relançamento de 30 minutos de vida, disco de estreia de Moris, e finalmente o mistério estava resolvido. Confesso que me decepcionei um pouco e o hit mais famoso do disco talvez seja El Oso mas basta uma primeira audição para perceber que De Nada Sirve é de longe a melhor música e há uma boa história por trás disso.

A música foi gravada em 1967 durante um intervalo de gravações do lendário guitarrista argentino Pappo com a banda Los Gatos nos estúdios TNT, em Buenos Aires. Pappo e Moris tocavam juntos algumas vezes e naqueles dias estava nascendo o rock argentino.

A gravação aconteceu meio no improviso e talvez por isso aquele registro seja tão importante e tenha resultado num momento fundador do gênero. A música já nasceu callejera e basicamente é tocada na forma de jam como fazem hoje rollingas e outros callejeros do rock. Todos teriam ficado tão impressionados dentro do estúdio que o proprietário cedeu a fita para que a música fosse lançada no primeiro disco solo de Moris, em 1970. Uma lenda também diz que a música descreve uma crise de abstinência causada pela falta de anfetaminas em Buenos Aires e que por isso acelera absurdamente até o final e se torna tão angustiante de ouvir.

Relembrei essa história algumas semanas atrás quando participava do Podcast de meu amigo Thunderbird, junto com Marcelo Gross, e comentamos sobre a influência do rock argentino no rock gaúcho. Poucos dias depois fui apresentado a um músico argentino chamado Leandro Conejo e quando contava essa história ele se indignou perguntando desconfiado “Quién es Moris? Moris es un galán, un farsante.. Moris noo…”, e passamos o resto da noite conversando sobre música com a paixão dos futebolistas.

Como ele também não conhecia Maurício Kagel, que foi outro compositor argentino que me influenciou bastante já na universidade, e eu tenho um disco de Pugliese, que ele afirma ser o maior compositor de tango argentino, me senti induzido a explicar esta espécie de Graal e a razão de De Nada Sirve e sua história serem tão importantes.

Boa parte das músicas de Moris e de todo o rock portenho daquela época estão hoje disponíveis na web mas durante décadas De Nada Sirve só esteve à salvo nas guitarras callejeras das juventudes de Buenos Aires e Santiago. Hoje há diversos textos e depoimentos de gente que foi influenciada por aquela canção e sobre seu papel na história do rock argentino. Há informações na Wikipédia e blogs de rock, e o próprio filho de Moris iniciou uma carreira baseada na história do pai.

Tudo isso recuperou um pouco da memória daquela época mas resolvi escrever este post para lembrar que, além das questões de mercado, também as músicas de Victor Jara, Violeta Parra, Silvio Rodrigues, outros rocks e canções de protesto foram censuradas nas rádios durante os regimes militares da América Latina fazendo com que só fosse possível ouvi-las em parques, bares ou festas de estudantes. Numa época em que não existia a internet o guitarrista callejero além de bardo foi uma espécie de portador desses segredos e emoções censurados e foi nesse contexto que De Nada Sirve se transformou num hino.

Não acredito que exista o momento zero do rock argentino e alguns vão falar em Charlie Garcia ou Pappo, e tem razão nisso, mas naquele dia em 1967 nos estúdios TNT foi gravado um dos seus momentos fundadores mais importantes. Pela letra, pela espontaneidade, pelo violão rasgado ou talvez porque ali não existia ainda a razão comercial das gravadoras pressionando por um produto de mercado que mataria muitos rocks nos anos seguintes.

Talvez toda esta história seja apenas um delírio de minha adolescência mas se você não conhece De Nada Sirve nem venha falar de rock argentino comigo. E se defende regimes militares nem venha falar….

 

 

 

Brincando de esconde-esconde no meio das ruínas

 

images

O sistema de financiamento dos partidos políticos se desmanchou e ninguém sabe o que virá por aí mas também há boas chances de que nada mude e isso é uma merda. O PT paga um preço alto por participar da disputa pelo poder mesmo sabendo que o jogo era viciado. Agora o capataz da Casa Grande sabe para quem apontar o dedo e faz isso criteriosamente dizendo que quem inventou o vício foi o PT.

Um bom exemplo disso –> Auguso Nardes é ministro do TCU e ex-deputado pelo PP gaúcho de onde saíram boa parte das citações de Youssef na Lava Jato. Também há suspeitas de que seu sobrinho, talvez ele mesmo, estejam envolvidos no esquema de sonegação de impostos da RBS… O jornalista Juremir Machado deu as primeiras pistas e esta semana Carta Capital publicou uma matéria mas essa é uma notícia que dificilmente os delegados vão vazar ou saberemos a verdade pelo noticiário com o devido contexto.

Não é pouca coisa o fato de que o presidente da Câmara esteja citado e denunciado pelos ministérios públicos da Suiça e Brasil pelo depósito de 5 milhões de dólares (ou 2.5), tenha mentido numa CPI, enquanto um Ministro do TCU seja suspeito de receber dinheiro de empresas num caso de corrupção. Foram só eles?

Só há uma saída para Cunha e Augusto Nardes que é tocar fogo no circo e criar um fato maior do que os esquemas em que estão envolvidos. Blefam e receberam apoio de tucanos transformando toda a sociedade em refém. É uma turma só…

Num mar de hipocrisia e cobras, Dilma não tem outra opção que não seja garantir que as instituições funcionem, buscar a redefinição de sua base política(?) com a única moeda que lhe resta que é a mudança nos ministérios, e devolver ao parlamento a tarefa de resolver o embrulho político…

Nesse caminho Dilma cometeu erros mas teve uma sorte e uma sabedoria. A sorte foi nunca ter sido candidata a cargo eletivo antes da presidência e por isso não há sobras de campanha e nem sinais de enriquecimento pessoal. A sabedoria foi criar uma contabilidade exclusiva para sua candidatura independente do partido. É por isso que a ideia do impeachment na verdade é golpe, porque tecnicamente suas contas de campanha são mais limpas que qualquer outra. Por isso o desespero nos olhos do Advogado Geral da União ao perceber que no TCU o julgamento das contas de governo passou a ser político.

É a sociedade que precisa se mexer e decidir logo se o destino do Brasil será se transformar num país moderno que aprende com suas crises ou se vamos ser um imenso Paraguai patrimonialista estimulado pelo consumo. O problema é lidar com a hipocrisia como a do presidente da FIESP reclamando do aumento de impostos na televisão quando todos sabemos o papel das empresas tanto na sonegação fiscal quanto na corrupção de funcionários públicos e políticos no Brasil. Não seria o momento de apresentar uma verdadeira proposta de reforma? Apontar um caminho para um novo pacto? O mau marketing recomenda encher o pato ao invés de aproveitar a oportunidade.

É só porque no Brasil há muito patrimônio e riqueza acumulada que os liberais tupiniquins se dispões a pactos hipócritas e preferem brincar nos escombros junto com golpistas, sonegadores, racistas, antidemocráticos e evangélicos de meia pataca que querem derrubar um governo eleito. Uma vergonha…

Manter os privilégios da Casa Grande tocando fogo no circo vai queimar muita gente no Brasil.

 

 

 

 

 

OS PROTESTOS, O MEDO E O LOBO DO INVESTIDOR

skater

 

Desde o início dos protestos de Junho de 2013 até hoje passamos por uma Copa do Mundo, eleições presidenciais, os atentados de Paris, a cana do FBI na turma da FIFA/CBF e a abertura da embaixada dos EUA em Cuba, mas ao longo de todo esse tempo o nó da política brasileira segue o mesmo.

 

Não importa se Cunha, Renan, Aécio, o falecido Sérgio Guerra, e sabe-se lá quem mais, também tenham sido citados na Lava Jato. Não importa o helicóptero do pó ou a pista na fazenda da família de Aécio, ou ainda saber quem era o dono do avião de Eduardo Campos… A notícia e a culpa devem ser sempre do PT e de Dilma.

O fato é que não foram nem a crise econômica e nem as pedaladas fiscais do governo que derrubaram o espírito empreendedor do capitalismo brasileiro. Foi uma mentalidade de ódio e rancor por perder as eleições e uma certa preguiça birrenta em remover privilégios o que envenenou a livre iniciativa nacional. Agora é um salve-se quem puder e um exemplo esdrúxulo disso é Serra quando nega ser golpista mas anuncia na TV Cultura – a TV bolivariana dos tucanos – que se alguém der o golpe ele pode ajudar no “pós”. Cara de pau tem limite?

A impressão é que não adianta nem fazer o ajuste fiscal que o mercado pediu. Quando gente que não passa fome começou a bater panelas e vestir camisetas da CBF para falar em corrupção entramos no terreno do bizarro e do reality show, e quem perde com isso é o país que joga fora a oportunidade de fazer as reformas necessárias. A culpa é da Dilma? Publiquei um post sobre o assunto (aqui) em Março quando a coisa começou a me parecer sem sentido.

A despolitização da classe média é assustadora e a ruína da representação partidária afundou definitivamente o Congresso no terreno na barganha corrupta entre seus pares. Passado o Mensalão, agora é a Lava Jato que segue mostrando os esquemas de corrupção e financiamento de TODOS os partidos mas a hipocrisia verde e amarela tem o bico grande e só enxerga aquilo que lhe convém para que nada mude. O que precisa mudar definitivamente é o financiamento dos partidos e sobre isso as coisas ainda pioraram.

garotadajpg

 

UTÓPICOS E LIBERTADORES

12 – 17 de Junho de 2013

Nas primeiras manifestações de junho de 2013 uma das coisas que mais me chamava a atenção era a pauta utópica e complexa que aquela garotada propunha.

Como assim, Passe Livre? Ninguém vai pagar para andar de ônibus ou metrô em São Paulo? Se esse movimento não tem líderes, como se organizou? Naquele momento, mesmo me considerando uma pessoa razoavelmente bem informada, eu não tinha dados suficientes nem mesmo para fazer um julgamento simples sobre aquelas perguntas.

São pautas ocultas na imprensa e, só para ficar em temas de trânsito, é parecido com aquilo que acontece com a redução da velocidade média dos veículos ou sobre a importância das ciclovias nas ruas de São Paulo. Há uma zona cinzenta sobre esses assuntos onde faltam informações e compromissos com a cidade e sobra um jornalismo superficial que atende apenas interesses políticos.

Como todos sabemos, tanto o jornalismo quanto a velha política se interessam mais por herdeiros do que pela juventude e os manifestantes da primeira fase de Junho de 2013 eram jovens, negros, brancos ou mulatos, homens e mulheres, secundaristas e universitários, que estavam completamente fora do radar tanto dos veículos de comunicação quanto dos partidos tradicionais. Um erro fatal.

Não era apenas pelos 20 centavos que tanta gente estava nas ruas. Os manifestantes questionavam o próprio modelo de transporte público e pareciam bastante dispostos a se organizar em busca de alternativas e soluções para os problemas da cidade e isso é muita coisa.

No dia 12 Junho foram 10, 20 ou 30 mil pessoas reunidas em frente ao Teatro Municipal? Nunca saberemos ao certo porque nem a polícia e nem a imprensa tratavam do assunto seriamente.

A prefeitura ouviu o recado das ruas e o prefeito Haddad, que já tinha esse compromisso de campanha, vem operando transformações corajosas e necessárias no trânsito da cidade e sua gestão será avaliada nas eleições do próximo ano.  Será a chance de discutir esses assuntos e minha impressão é que isso será uma espécie de juízo final sobre São Paulo.

..

O DESASTRE DA PM E A VIOLÊNCIAblac&white

12/06/2013

Foi no mesmo dia 12 de Junho que a ordem do governador Alckmin para impedir que a manifestação chegasse na Av. Paulista levou a PM de São Paulo a se envolver numa operação desastrada que terminou com jornalistas baleados, policiais flagrados depredando viaturas e muita gente ferida.

O resultado é que uma nova passeata foi chamada para dali a cinco dias e a indignação com a violência policial levou ainda mais gente às ruas. Só que desta vez uma multidão de centenas de milhares também nunca contabilizados passou a criticar o papel das polícias e dos veículos de comunicação.

Chamo essa fase de libertadora e utópica e serviu como um rito de passagem e tomada de consciência política pra muita gente. Mas também foi depois do dia 17 de Junho que as empresas de comunicação se deram conta de que esse gigante estava acordando e se tornou inevitável que entrassem no jogo.

 

A TELEVISÃO ME DEIXOU BURRO, MUITO BURRO DEMAISpipoca

 A manifestação seguinte, na Av Paulista, marcou uma virada na opinião de cronistas como Arnaldo Jabor e Reinaldo Azevedo, que até então tratavam os manifestantes apenas como um grupo de jovens irresponsáveis.

As TVs iniciaram coberturas espetaculosas e esse foi o sinal para que uma audiência despolitizada saísse às ruas protestando agora contra o governo federal. Também foi ali que surgiu uma estranha aliança entre anticapitalistas e fascistas que se encarregaram do show do quebra-quebra diário para o Jornal Nacional. Talvez o estranho ali fosse eu mas resolvi seguir nas ruas gravando.

O prédio da FIESP se pintou de verde e amarelo e se até aquele momento apenas o Mídia Ninja fazia a cobertura dos protestos, a partir dali haveriam helicópteros e links ao vivo dominando o imaginário da classe média.

Esse dia marcou o inicio de um ciclo de violência e nacionalismo que atravessou as eleições e depois seguiu com pedidos de golpe e impeachment. Foi quando chegaram os homens de 40-50 anos, sem uma pauta clara, porém, claramente anti-petistas e dispostos ao confronto com outros manifestantes. Os rancorosos…

 

O MACHO DESPOLITIZADO QUERENDO BRIGA

No dia 20 de Junho registrei em vídeo a ação organizada de um grupo de direita que tinha cerca de 50 participantes e que começou interrompendo o fluxo da passeata logo atrás de um bloco de lutas. Depois cantaram o hino nacional e se levantaram gritando “Sem partido” seguindo na direção daqueles que carregavam bandeiras vermelhas e começaram as agressões. Era uma coreografia e vi aquilo como um sinal para voltar para casa…

A audiência das TVs chegava abraçada a grupos de direita carregados de ódio e violência política. Voltaram os discursos da guerra-fria, inflamaram-se os discursos contra a Copa, pela intervenção militar e tudo isso aumentou o envenenamento das redes sociais com agressões e ofensas contra quem pensa diferente. São espaçosos, perdem eleições e são chatos pra caramba.

O clima ficou insuportável e minha impressão é que o capitalismo brasileiro envenenou seu próprio espírito animal e hoje prefere ir fazer compras em Miami do que criar um projeto para o Brasil. Prefere viver de renda e de seu narcisismo consumista do que pensar num ideal de nação que envolva a todos. Como diz Constantino, o pequeno herdeiro, ele prefere limpar privadas em Miami do que morar no Brasil…fazer o quê?

É uma opção moral bastante duvidosa a dessa nova direita em assumir tamanho cinismo e Milton Friedman deve se revirar no caixão cada vez que alguém dessa turma fala em seu nome.

Concordo com o que li de Luis Nassif e também acho que essa fase dos protestos terminou, até porque o mercado parece ter percebido que quem vai pagar a conta são seus apostadores. O medo é o lobo do investidor e um espírito animal cego de ódio não serve pra nada. O NYTimes e a Globo já avisaram que Dilma deve terminar seu mandato e se alguém quiser a volta dos militares terá que conseguir votos para acabar com a democracia. Hummm…

Resolvi relembrar essa sequência de fatos para marcar o fim deste ciclo de protestos e principalmente para afirmar aquilo que considero o saldo positivo desses dois anos de manifestações. Os estudantes que iniciaram os protestos de Junho tinham razão em sua utopia libertadora e voltaram pra casa há um bom tempo mas antes foram ouvidos pelo poder público e uma reforma importante está sendo implantada no trânsito da cidade de São Paulo. Tomara que sigam se fazendo ouvir e essa turma será decisiva nas próximas eleições…

Já a turma do macho despolitizado de 50 anos que predominou nas últimas manifestações parece que vai seguir engarrafada, tomando rivotril e querendo que os militares resolvam seus problemas.

Você está do lado de quem nessa história?

 

 

Uma nota sobre o protesto coxa-creme

rock
Se você está na minha lista de contatos e vai participar de alguma das manifestações que misturam pedidos de impeachment, pela volta da ditadura, ou qualquer coisa genérica que te motive para ir às ruas hoje, saiba que apesar das bobagens eu defendo o seu direito de protestar porque defendo a democracia e a liberdade. Adoro conversar sobre futebol, política e religião, portanto estou acostumado a ouvir opiniões contrárias e acredito que os argumentos trazem à luz.

Só não vai vestindo a camisa da CBF sem antes se perguntar onde está Ricardo Teixeira e por que ele mora em Miami e não estava presente durante a Copa do Mundo no Brasil. Pergunte também sobre as falcatruas na CBF e na FIFA que foram escândalo mundial mas que mal repercutiram no Brasil. Por quê? Pergunte as razões disso e também sobre o esquema criativo para não pagar impostos devidos sobre direitos de transmissão envolvendo a Globo, FIFA e paraísos fiscais no Caribe… Será que foi só esse esquema? Em todo caso, melhor não usar a camiseta da CBF…

Também não acuse o filho do Lula de ser milionário e dono da Friboi porque você vai fazer papel de bobo desinformado mas faça perguntas sobre a sociedade da filha do Serra com o homem mais rico do Brasil numa fábrica de sorvetes…

Pergunte também por que o esquema de guardar dinheiro e sonegar impostos via HSBC na Suiça não repercute como deveria aqui dentro sendo que o Brasil é quarto país com mais dinheiro nessa boca suja. Não é crime ter conta na Suíça mas essa filial é conhecida pelas falcatruas planetárias que fez e ninguém vai na boca de fumo para rezar o terço.

Se você for de São Paulo faça perguntas sobre porque falta água potável em São Paulo sendo que no ano mais seco dos últimos 100 anos chove todos os dias. Para onde vai toda essa água? Pergunte também porque o trânsito é um inferno e qual é a relação disso com a corrupção nos esquemas do metrô que nunca foram devidamente investigados. Qual é o custo disso na sua irritação cotidiana? Pergunte sobre 17 meses seguidos de recordes de roubos e assaltos no estado de SP. Você sabe quem é Robson Marinho, Barros Munhoz, Paulo Preto…?

Se você vai nos protestos e acha que o liberalismo é uma espécie de ideologia da liberdade lembre-se que hoje você estará acompanhado daqueles que estão numa cruzada contra os direitos civis de mulheres, negros, gays, jovens… Você estará junto daqueles que pregam contra a liberdade de expressão, contra a democracia e isso torna você apenas massa de manobra de anti-democratas e patrimonialistas.

Se for gritar que vivemos numa ditadura ou estamos perto de um regime bolivariano lembre-se que o PSDB governa São Paulo há 20 anos e o PMDB no Rio também. Lembre que o PMDB preside a Câmara e o Senado e que o PT tem apenas 17% dos congressistas. Lembre-se que longe de sermos um regime comunista temos um judiciário tão independente que praticamente só condena políticos do PT por corrupção. Agora, seja sincero: você acha realmente que a corrupção no Brasil começou há 13 anos no governo do PT?

Se você é um amigo mais radical e acha que Dilma é responsável por tudo de errado que acontece no país, que o PT frustrou sua utopia de esquerda e que todos os políticos são iguais, acho que chegou a hora de você fundar um partido. Talvez eu vote em você um dia mas primeiro largue de mão a companhia discursiva de Bolsonaro, Lobão, Reinaldo Azevedo, Roger Moreira, Olavo de Carvalho e esse ódio que todos eles carregam…

Se você vai protestar e acha que o Brasil é um país de merda e que o problema é o povo brasileiro eu apoio sua mudança para Miami. Vai ser feliz nessa vida, porra!

Enfim, vá protestar mas antes procure se informar sobre aquilo que você está fazendo e não me chame para essa papagaiada!

Viva a democracia!