{"id":6117,"date":"2015-11-09T23:08:00","date_gmt":"2015-11-10T01:38:00","guid":{"rendered":"http:\/\/punkjazz.tv\/bologs\/?p=6117"},"modified":"2020-05-03T14:41:07","modified_gmt":"2020-05-03T17:41:07","slug":"de-nada-sirve-ou-uma-pequena-historia-de-um-rock-argentino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/punkjazz.tv\/bologs\/?p=6117","title":{"rendered":"De Nada Sirve ou a pequena hist\u00f3ria de um rock argentino"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/punkjazz.tv\/bologs\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Screen-Shot-2015-11-09-at-10.10.49-PM.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-6118\" src=\"http:\/\/punkjazz.tv\/bologs\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Screen-Shot-2015-11-09-at-10.10.49-PM-300x227.png\" alt=\"moris\" width=\"300\" height=\"227\" srcset=\"https:\/\/punkjazz.tv\/bologs\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Screen-Shot-2015-11-09-at-10.10.49-PM-300x227.png 300w, https:\/\/punkjazz.tv\/bologs\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Screen-Shot-2015-11-09-at-10.10.49-PM-500x378.png 500w, https:\/\/punkjazz.tv\/bologs\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Screen-Shot-2015-11-09-at-10.10.49-PM.png 537w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Aquela viagem para Santiago do Chile come\u00e7ou aos dezenove anos de idade, logo depois que terminei o ensino m\u00e9dio quando eu ainda n\u00e3o tinha a m\u00ednima ideia do que fazer de minha vida adulta. Eu morava em Porto Alegre e as confus\u00f5es psicol\u00f3gicas de um adolescente de classe m\u00e9dia n\u00e3o eram vistas exatamente como um problema na minha fam\u00edlia, e desde a inf\u00e2ncia, quando tios come\u00e7avam com perguntas bobas do tipo \u201co que voc\u00ea vai ser quando crescer?\u201d, meus pais sempre deixaram claro que eu e minha irm\u00e3 ter\u00edamos a \u00a0liberdade e tempo para decidir sobre o nosso futuro independente das press\u00f5es familiares.<\/p>\n<p>Os problemas come\u00e7aram alguns anos mais tarde quando resolvi ser m\u00fasico e o Brasil vivia anos de sucessivas crises econ\u00f4micas e infla\u00e7\u00e3o descontrolada&#8230;<\/p>\n<p>Eu tinha passado a maior parte do ensino m\u00e9dio dedicado ao viol\u00e3o e ao movimento estudantil e de alguma forma acho que isso ajudou a convencer meus pais de que eu precisava viajar para conhecer um mundo mais pr\u00e1tico, e talvez isso me ensinasse a ganhar algum sal\u00e1rio. Meu velho estabeleceu uma regra simples e disse que me ajudaria com algum dinheiro na partida, e mandaria a passagem de volta caso necess\u00e1rio, mas eu tinha que me virar para pagar as contas da estrada porque ele n\u00e3o iria sustentar muita vagabundagem.\u00a0Em duas semanas\u00a0eu estava dentro de um \u00f4nibus para Santiago carregando uma mochila, o viol\u00e3o e um peda\u00e7o de papel que uma garota tinha me passado com o endere\u00e7o de alguns amigos na rua Licenciado Las Pe\u00f1as.<\/p>\n<p>A casa era uma rep\u00fablica e nunca soube ao certo quanta gente morava ali dentro mas fiquei amigo de dois estudantes de artes e outro do Instituto Pedag\u00f3gico que estavam envolvidos nos protestos contra a ditadura de Pinochet. Era uma casa t\u00e9rrea constru\u00edda com tijolos de adobe e um pequeno jardim com uma\u00a0ed\u00edcula\u00a0nos fundos onde morava o propriet\u00e1rio beberr\u00e3o e um cachorro vira-lata, al\u00e9m de tr\u00eas enormes p\u00e9s de maconha.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que acontecia em Porto Alegre onde uma jovem boemia j\u00e1 estava nas ruas respirando alguma liberdade apesar da ditadura, o Chile de 1984 ainda vivia em pleno regime militar e a \u00fanica divers\u00e3o noturna poss\u00edvel era beber em casa com amigos e conversar sem fazer muito barulho. As noites eram tensas e no som da casa rodavam fitas cassete misturando Pink Floyd, Bob Dylan, Stones e m\u00fasica latina.<\/p>\n<p>O rock ainda mantinha seus c\u00f3digos secretos para iniciados e a m\u00fasica preferida de todos na casa era <em>De Nada Sirve<\/em>, de Moris, que tinha se transformado numa esp\u00e9cie de hino existencialista daquela turma. Um sil\u00eancio frio das primeiras notas pegava fogo e o rock argentino virava pura poesia e desabafo, e nunca mais me esqueci daquela melodia.<\/p>\n<p>Apesar de ter nascido em Santiago quase todos daquela turma me chamavam de<em> brasile\u00f1o,<\/em> n\u00e3o s\u00f3 porque eu tinha chegado do Brasil e devia ter algum sotaque, mas principalmente porque tocava um viol\u00e3o meio batucado que todos gostavam e parecia dific\u00edlimo para eles.<\/p>\n<p>Um dia est\u00e1vamos atirados na grama do parque Forestal quando Carlos me passou o viol\u00e3o e pediu que eu tocasse <em>De Nada Sirve <\/em>e\u00a0acabei fazendo\u00a0uma vers\u00e3o de improviso que bastou para me tornar o <em>guitarrista callejero<\/em> da turma.<\/p>\n<p>No final daquele ano voltei a Porto Alegre para fazer o vestibular e consegui entrar no Instituto de Artes. Com o tempo desapareceram\u00a0as preocupa\u00e7\u00f5es de meus velhos e o mesmo viol\u00e3o que me acompanhou naquela viagem ainda circula\u00a0pela minha casa em S\u00e3o Paulo e recentemente passou a dormir no quarto de meu filho.<\/p>\n<p>Como nunca consegui decorar a letra inteira, durante mais de vinte anos perguntei para amigos argentinos de minha gera\u00e7\u00e3o se eles conheciam\u00a0<em>De Nada Sirve\u00a0<\/em>e ningu\u00e9m tinha a m\u00ednima ideia da m\u00fasica ou de seu autor. Isso me obrigou a fazer tudo de improviso e s\u00f3 resolvi isso anos mais tarde quando\u00a0uma amiga argentina telefonou dizendo que tinha conseguido o\u00a0CD com o relan\u00e7amento de <em>30 minutos de vida, <\/em>disco de estreia de Moris. \u00a0Descobri que o hit mais importante do disco talvez seja <em>El Oso,\u00a0<\/em>mas <em>De Nada Sirve<\/em> \u00e9 de longe a melhor m\u00fasica e h\u00e1 uma boa hist\u00f3ria por tr\u00e1s disso.<\/p>\n<p>A can\u00e7\u00e3o foi gravada em 1967 durante um intervalo de grava\u00e7\u00f5es do lend\u00e1rio guitarrista Pappo com a banda Los Gatos, nos est\u00fadios TNT, em Buenos Aires.\u00a0Pappo e Moris j\u00e1 tinham tocado\u00a0juntos algumas vezes\u00a0e naqueles dias estava nascendo o\u00a0rock argentino.<\/p>\n<p>A grava\u00e7\u00e3o aconteceu de improviso e talvez por isso aquele registro seja t\u00e3o importante e tenha resultado num momento fundador do g\u00eanero. A m\u00fasica j\u00e1 nasceu <em>callejera<\/em> e basicamente \u00e9 uma <em>jam <\/em>como fazem at\u00e9 hoje rollingas e outros <em>callejeros<\/em> do rock. Todos ficaram impressionados dentro do est\u00fadio e o propriet\u00e1rio cedeu a fita para que a m\u00fasica fosse lan\u00e7ada no primeiro disco solo de Moris em 1970. Uma lenda tamb\u00e9m diz que a m\u00fasica descreve uma crise de abstin\u00eancia causada pela falta de anfetaminas em Buenos Aires, e que por isso acelera absurdamente at\u00e9 o final e se torna t\u00e3o angustiante de ouvir.<\/p>\n<p>Relembrei essa hist\u00f3ria algumas semanas atr\u00e1s quando participava do Podcast de meu amigo Thunderbird junto com Marcelo Gross e comentamos\u00a0sobre a influ\u00eancia do rock argentino no rock ga\u00facho. Poucos dias depois fui apresentado a um m\u00fasico argentino chamado Leandro Conejo\u00a0e quando contava essa hist\u00f3ria ele se indignou perguntando desconfiado \u201cQui\u00e9n es Moris? Moris es un gal\u00e1n, un farsante.. Moris noo&#8230;\u201d, e passamos o resto da noite conversando sobre m\u00fasica com a paix\u00e3o dos futebolistas.<\/p>\n<p>Como ele tamb\u00e9m n\u00e3o conhecia Maur\u00edcio Kagel, que foi outro compositor argentino que me influenciou bastante na universidade, e eu tenho um disco de Pugliese, que ele afirma\u00a0ser o maior compositor de tango argentino, me senti induzido a explicar esta esp\u00e9cie de Graal e a raz\u00e3o de\u00a0<em>De Nada Sirve<\/em> e sua\u00a0hist\u00f3ria serem t\u00e3o\u00a0importantes. Eu amava aquela m\u00fasica&#8230;<\/p>\n<p>Boa parte das m\u00fasicas de Moris e de todo o rock portenho daquela \u00e9poca hoje est\u00e3o\u00a0dispon\u00edveis na web, mas durante algumas d\u00e9cadas <em>De Nada Sirve<\/em> s\u00f3 esteve \u00e0 salvo nas <em>guitarras callejeras <\/em>das juventudes de Buenos Aires e Santiago. Hoje h\u00e1 diversos textos e depoimentos de gente que foi influenciada por ela e sobre seu papel na hist\u00f3ria do rock argentino. H\u00e1 informa\u00e7\u00f5es na Wikip\u00e9dia e blogs de rock e o pr\u00f3prio filho de Moris iniciou uma carreira baseada no resgate da hist\u00f3ria do pai.<\/p>\n<p>Tudo isso recuperou um pouco da mem\u00f3ria daqueles dias mas resolvi escrever este post\u00a0para lembrar que al\u00e9m das quest\u00f5es de mercado tamb\u00e9m as m\u00fasicas de Victor Jara, Violeta Parra, Silvio Rodrigues, e outros rocks e can\u00e7\u00f5es de protesto, foram\u00a0censuradas nas r\u00e1dios durante os regimes militares da Am\u00e9rica Latina. Numa \u00e9poca em que n\u00e3o existia a internet o <em>guitarrista callejero,<\/em>\u00a0al\u00e9m de bardo, foi uma esp\u00e9cie de portador desses segredos e sentimentos censurados, e foi nesse contexto que <em>De Nada Sirve<\/em> se transformou num hino.<\/p>\n<p>N\u00e3o acredito que exista o momento zero do rock argentino e alguns v\u00e3o falar em Charlie Garcia ou Pappo, e tem raz\u00e3o nisso, mas naquele dia em 1967 nos est\u00fadios TNT foi gravado um dos seus momentos fundadores mais importantes. Pela letra, pela espontaneidade, pelo viol\u00e3o rasgado ou talvez porque ali n\u00e3o existia ainda a raz\u00e3o comercial das gravadoras pressionando por um produto de mercado que mataria muitos rocks nos anos seguintes.<\/p>\n<p>Talvez toda esta hist\u00f3ria seja apenas um del\u00edrio de minha adolesc\u00eancia\u00a0mas se voc\u00ea n\u00e3o conhece <em>De Nada Sirve<\/em> nem venha falar de rock argentino comigo. E se defende regimes militares e todas as mortes que provocaram nem venha falar&#8230;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4Tk371rH4Gs\" width=\"420\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aquela viagem para Santiago do Chile come\u00e7ou aos dezenove anos de idade, logo depois que terminei o ensino m\u00e9dio quando eu ainda n\u00e3o tinha a m\u00ednima ideia do que fazer de minha vida adulta. 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