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A história é a mesma

Publiquei esse texto em 2006 depois de uma polêmica com a campanha Ovos e Tomates veiculada na MTV durante as eleições daquele ano. Na época, alguns membros dos Conselho Nacional de Juventue se manifestaram contra a campanha e acabei participando de uma série de debates e entrevistas para esclarecer que a campanha não só não defendia o voto nulo (ainda que isso fosse possível…), assim como também não tinha nada de apolítico no discurso. Minha surpresa foi ver que boa parte das críticas resultavam de uma leitura quase sempre equivocada do conteúdo dos spots. Literalmente questionavam a qualidade da campanha eleitoral… mas havia algo recalcado que despertou um conteúdo maior. Zico Goes era o diretor de programação e pediu que eu fosse a Brasília para entrevistar o presidente do TSE, Marco Aurélio de Mello, e aproveitei para fazer o mesmo com o presidente da UBES, Thiago Franco. Ambos já nem estão mais no cargo mas com a atual crise no Senado, a volta da tropa de choque collorida defendendo o Sarney e o recente congresso da UNE em Brasília me lembrei desse texto… já quase perdi o saco mas achei que seria a melhor forma de voltar ao assunto.
O sol que arde em Brasília
Logo que chegamos no aeroporto ligo para o Thiago e marcamos um encontro na entrada do Congresso…Suspeito que o cara seja um pelego como foram a maioria dos presidentes da UBES ou UNE desde a redemocratização do pais. Confesso que tenho pouca paciência e estou louco para apertar o cara. A UNE/UBES sempre estiveram nas mãos das tendências do partidos de esquerda que desprezam a cultura de jovens que não estão convertidos a suas crenças. E os que estão convertidos submetem-se a um centralismo democrático que engessa qualquer liberdade de pensamento ou autonomia critica.. Mas estou aberto ao dialogo e quero dar chance ao cara para realizar uma boa entrevista.
Começo perguntando sobre a importância do voto e se ele realmente acredita que nas atuais circunstâncias ouvir o que os políticos vão dizer no horário eleitoral vai mudar o estado das coisas no Brasil. Principalmente se levarmos em conta que na atual legislatura aconteceram muitos erros e crimes, poucas punições, e os partidos nem mesmo vieram à público propondo um acordo ético mínimo para atuar no parlamento, expulsar corruptos, e pedir nosso voto. Pelo contrário, não sabendo se comportar direito, disputam abertamente o poder e oferecem legendas para inocentar os seus pilantras em quase todos os partidos.“Acredito.”, responde Thiago Franco, presidente da UBES, mal conseguindo disfarçar sua preferência pelo governo e o conforto de suas relações em Brasília. Argumenta que nenhum presidente brasileiro tinha recebido a UNE/UBES em audiência e que o atual teria sido mais sensível aos temas de juventude. Concluiu com uma lista de leis e benefícios que hoje tramitam no Congresso. Depois fez uma reza institucional falando da importância do voto aos 16 anos, atribuindo-se a representação de aproximadamente 40 milhões de brasileiros segundo dados atribuídos ao IPEA.
Se ele valoriza tanto o voto, pergunto qual é a razão então para que a UBES não realize eleições diretas para escolher sua diretoria e seu próprio presidente? Por que um jovem aos 16 anos pode ser considerado apto para escolher o presidente de seu pais mas não o presidente de sua entidade representativa? Thiago fica um pouco constrangido e responde, sem explicar direito, que a escolha indireta dos representantes seria mais democrática. Emendou dizendo que a diretoria é composta de forma proporcional por representantes de todas as tendências políticas….Ah! tah! A eleição é indireta e os grupos dividem os cargos entre si… Céus! Esse cara deve estar brincando de Cuba ou de uma espécie de CBF da política estudantil… Não é à toa que tanta gente acusa a UBES de ser apenas uma máquina de fazer carteirinhas ou depósito de pelegos.
Thiago é simpático e estamos sentados no gramado em frente ao Congresso Nacional com o sol de Brasília rachando nossas cabeças. Pergunto para o jovem presidente, apontando para a cúpula invertida da Câmara, se ele não jogaria mesmo ovos e tomates nos picaretas, mensaleiros e sanguessugas que frustraram nossas expectativas políticas. Nos FDP’s que roubaram a dignidade de nosso parlamento. Ele disse que não jogaria e que na verdade trata-se de um combate ideológico. De um lado estariam os movimentos sociais e de juventude e de outro o capitalismo cuja ideologia é a alienação. Na visão de Thiago essa seria a verdadeira razão da pouca participação da juventude na vida política brasileira. Considerei a hipótese dele mesmo estar alienado em função de uma ideologia que determina sua visão de mundo mas ele preferiu falar sobre a importância histórica do movimento estudantil. O petróleo é nosso e os cara pintadas…
Depois de quase uma hora conversando já estou derretido pelos reflexos do sol nas paredes brancas do Congresso. Para encerrar, volto ao tema da participação juvenil. Pergunto sobre drogas, aborto, sexualidade, qualidade da educação mas ele pareceu mais preocupado com a veemência da MTV. Minha impressão é que se sentiu ideologicamente ameaçado pela liberdade de expressão. Tem medo de que a mensagem possa conduzir a uma espécie de anarquismo sem sentido. E o quê virá depois? Pergunta ingenuamente. Digo que pouco importa! Que ele respire fundo e se inspire numa revolução democrática pop revolucionaria. Incentivo a colocar os estudantes nas ruas, a despejar caminhões de ovos e tomates na casa dos corruptos, a criar uma pauta efetiva de juventude e a protestar contra a incompetência e a burrice de nossos governantes. Onde estão os 40 milhões que ele representa? Mas ele não quer jogar ovos mesmo…
Thiago está sossegado. Parece ter consciência de que está ali mais para administrar o histórico e o narcisismo de uma instituição do que para refletir e avançar posições políticas. Está matriculado num cursinho pré-vestibular e quer estudar cinema no Rio de Janeiro.
Nas próximas eleições pode tentar uma vaga na UNE. Enquanto isso, o Brasil segue deitado em berço esplendido.
Junho de 2006
