Quando as ruas se tornam o meio e a mensagem

 

hidrante

Foi uma tragédia o que aconteceu ontem na passeata contra o aumento das passagens de ônibus em São Paulo. Escrevi um post aqui no blog (–>linksobre os protestos em Porto Alegre que aconteceram há pouco mais de um mês e basicamente acho que são os mesmos argumentos que podem ser aplicados a quase todas as cidades do Brasil.

Trata-se de uma pauta muito mais complexa que tanto os políticos quanto a mídia, por conveniência, trataram de ignorar. Agora os veículos de comunicação não sabem o que falam, com quem falam e para quem falam. O políticos escorregam para o lado e a polícia tem raiva.

As cenas revelam uma falta de preparo e incompetência difícil de corrigir enquanto as polícias se nomearem militares. A corporação que antes se sentia ofendida pela democracia e pelos jovens nas ruas agora passou a agredir jornalistas. Atira no olho. E, numa incrível inversão de valores, sugerem uma vingança a um policial armado e louco que apareceu no dia anterior na capa da Folha apontando a arma para civis enquanto, mesmo com a cabeça sangrando, segura pelo pescoço um manifestante caído. O quixote do fracasso…

“O povo acordou”, é uma das palavras de ordem das ruas e basta perguntar a qualquer usuário do sistema público de transportes que a resposta será a mesma: uma merda! Há paliativos para o caos como encerrar-se num carro com ar condicionado, Iphone e uma opinião reacionária sobre tudo o que está acontecendo ao redor mas não vai adiantar. Como escrevi antes, na minha opinião os políticos que não entenderem isso é melhor que saiam da frente.

Há imagens de policiais quebrando a própria viatura e agredindo cidadãos comuns com tiros de borracha, cassetete e gás de pimenta que agora correm a web e por si só contam a história. Fica a feliz sensação de que não existe volta e quando as pessoas se levantam do sofá e saem para as ruas, são as ruas que se tornam o meio e a mensagem. Entendeu?

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Sobre os protestos de Porto Alegre

foto Editorial J
foto Editorial J

 

Não é apenas o preço da passagem de ônibus…

É uma pauta de juventude porque são os jovens que pagam a conta dos erros do passado e vão pagar pelos erros dos próximos governantes. Também porque normalmente é na juventude, uma fase transitória da vida, que nos damos conta de que as contas não fecham. Estão nas ruas porque é uma passagem cara para jovens que estudam e pegam ônibus para ir a escola, teatros, shows, festas, encontrar amigos, procurar emprego, e faltam alternativas…

É uma pauta de transporte público porque não se trata apenas de R$, 3,05 mas sim de sistemas saturados que não funcionam nas grandes cidades. Faltam transparência nos números, investimentos públicos, ciclovias, campanhas educativas, fiscalização… Esse preço seria caro para viajar de pé e apertado em qualquer cidade do mundo e vai ficar cada vez mais caro se as cidades brasileiras não repensarem seus modelos de desenvolvimento.

É uma pauta de economia porque revela que a falta de projetos para as cidades implica em mortes, congestionamentos, desperdício de dinheiro e tempo, etc. Também porque politicas econômicas alimentadas por crédito para comprar carros que custam o dobro daquilo que deveriam custar tem tempo e efeitos limitados.

É uma pauta politica porque são cidadãos reclamando de um modelo de gestão que não funciona para eles. Reclamam de governantes apáticos e personalistas sem compromissos concretos com o desenvolvimento das cidades. Aqueles governantes que não tiverem capacidade ou criatividade para responder às demandas dessa nova sociedade que emerge no Brasil é melhor que saiam da frente.

Não adianta esperar da mídia tradicional a cobertura e análise do que está acontecendo porque eles também estão perdidos e de mãos atadas com lógicas corporativas. Há uma nova participação popular que coloca em cheque tanto os modelos de negócio quanto de representação politica. Isso deveria ser viso como uma oportunidade…

Estamos preparados para esse dialogo?