Sobre os protestos de Porto Alegre

foto Editorial J
foto Editorial J

 

Não é apenas o preço da passagem de ônibus…

É uma pauta de juventude porque são os jovens que pagam a conta dos erros do passado e vão pagar pelos erros dos próximos governantes. Também porque normalmente é na juventude, uma fase transitória da vida, que nos damos conta de que as contas não fecham. Estão nas ruas porque é uma passagem cara para jovens que estudam e pegam ônibus para ir a escola, teatros, shows, festas, encontrar amigos, procurar emprego, e faltam alternativas…

É uma pauta de transporte público porque não se trata apenas de R$, 3,05 mas sim de sistemas saturados que não funcionam nas grandes cidades. Faltam transparência nos números, investimentos públicos, ciclovias, campanhas educativas, fiscalização… Esse preço seria caro para viajar de pé e apertado em qualquer cidade do mundo e vai ficar cada vez mais caro se as cidades brasileiras não repensarem seus modelos de desenvolvimento.

É uma pauta de economia porque revela que a falta de projetos para as cidades implica em mortes, congestionamentos, desperdício de dinheiro e tempo, etc. Também porque politicas econômicas alimentadas por crédito para comprar carros que custam o dobro daquilo que deveriam custar tem tempo e efeitos limitados.

É uma pauta politica porque são cidadãos reclamando de um modelo de gestão que não funciona para eles. Reclamam de governantes apáticos e personalistas sem compromissos concretos com o desenvolvimento das cidades. Aqueles governantes que não tiverem capacidade ou criatividade para responder às demandas dessa nova sociedade que emerge no Brasil é melhor que saiam da frente.

Não adianta esperar da mídia tradicional a cobertura e análise do que está acontecendo porque eles também estão perdidos e de mãos atadas com lógicas corporativas. Há uma nova participação popular que coloca em cheque tanto os modelos de negócio quanto de representação politica. Isso deveria ser viso como uma oportunidade…

Estamos preparados para esse dialogo?

 

 

Terroristas são os outros

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Terrorismo é um ato político que visa incutir medo e terror para obter efeitos psicológicos sobre o resto da população de um território ou país…”

Já segundo a descrição de boa parte da mídia brasileira, muitas vezes também foram apresentados como terroristas todos aqueles jovens que lutaram contra a DITADURA militar no país mesmo sem pegar em armas. Há uma zona cinzenta na cabeça da classe média até hoje sobre isso…

Pode parecer ridículo mas além da Guerra-Fria, o que mais assustava os graúdos do conservadorismo eram as ideias de estudantes de vinte e poucos anos que gostavam de cultura e política, e que de alguma forma estavam antenados com o que acontecia no Brasil e no Mundo.

É bom lembrar que também eram esses estudantes que protestavam nas ruas defendendo o fim da censura enquanto a maioria dos veículos de comunicação saudava o golpe militar com editoriais defendendo a democracia(?).

Também é importante lembrar que apenas uma minoria dentro da própria esquerda se bandeou para a guerrilha que terminou em algumas trapalhadas, assaltos a bancos (no total menos do que a média mensal que temos hoje) e sequestros políticos. Cometeram assassinatos porém mais morreram do que mataram, fato que não serve de justificativa mas deveria servir para dimensionarmos o que aconteceu naqueles anos de chumbo e que está mal explicado até hoje.

Mesmo com o fim da ditadura e as sucessivas crises do capitalismo não deixa de ser um paradoxo que anos mais tarde, exatamente durante o governo daqueles ex-jovens “terroristas”, o Brasil tenha encontrado o rumo do desenvolvimento econômico com inclusão social. Essa é a esfinge latino-americana que os neoliberais não conseguem decifrar porque raramente incluem em suas equações o avanço social como fundamento econômico e político de um país. Esse capítulo simplesmente não existe nas teorias de Milton Friedman e talvez por isso se limitem a esbravejar paranóias contra um governo popular e democrático, que dispõe de reservas de dólares, zonas de pleno emprego, commodities, petróleo e uma matriz energética limpa…

Como de fato é uma tarefa difícil se opor a tudo isso, restam então os surrados estigmas de terroristas, abortistas, maconheiros, veados, putas ou postes, que sempre fizeram parte dos argumentos conservadores no Brasil. O falso juízo moral e a tradição bacharelesca dão o tom para esse teatro hipócrita e cínico que transforma liberais de meia tigela em reacionários.

Goste-se ou não de sua personalidade basta pensar na figura de José Dirceu, que já foi em cana, solto e julgado mais de uma vez ao longo de sua vida política, enquanto os responsáveis pelos CRIMES da ditadura como sequestro, assassinatos e atos TERRORISTAS nunca foram sequer conhecidos e julgados.

Vladimir Herzog, Rubens Paiva, Alexandre Vannuchi são apenas algumas das vítimas SEM envolvimento direto com a guerrilha que foram assassinadas de forma ainda não esclarecida e (ou) desaparecidos até estes dias…. Quantos mais foram? O que aconteceu com eles? Quem foi o mandante?

Além de dar uma resposta aos familiares da vítima e a sociedade, responder a essas perguntas talvez nos ajude a entender melhor a falência do atual modelo de segurança pública, por exemplo, ou sobre as raízes do protofacismo de que fala Marilena Chauí. Talvez nos ajude também a entender a importância da verdade e de um relativo bom senso no discurso político.

Certamente a democracia brasileira precisa ser aprofundada mas cada vez fica mais claro que não serão os partidos que vão liderar esse processo. As Comissões da Verdade já trouxeram avanços importantes mas se perguntarem minha opinião eu diria que ainda há muito  bicho solto por aí. Somente com o desenlace desse nó é que vai haver algum avanço sobre a história política do país e enquanto isso não acontecer seremos todos reféns das aves agourentas que alimentam a cadeia sem fim da hipocrisia. Uma cadeia na qual Feliciano é apenas a ponta mais bagaceira do preconceito e da mentira.

O bom é que agora vivemos numa democracia e mais uma vez jovens estão nas ruas defendendo direitos universais. E também que a revolução tecnológica libertou corações e mentes das amarras das versões manipuladas e da passividade daqueles que se limitam a comprar informação. Posso estar enganado mas penso que há um mundo novo lá fora…Pega a bike e vai dar uma olhada!

(fotos do protesto Anti-Feliciano em SP)

Uma diferença entre solidariedade e estupidez

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Não deveria ser difícil mesmo para uma sociedade em desenvolvimento constatar que histerias individuais e coletivas podem tomar proporções desmedidas depois de uma tragédia em que de certo modo todos somos vítimas, como essa de Santa Maria.

Uma das lições mais difíceis que aprendi de meu pai foi sobre a importância  de ficar calmo, na medida do possível, e agir com rapidez e sabedoria em casos de acidentes. Se por um lado é preciso ajudar os feridos o quanto antes, também é importante afastar os que estão muito nervosos e os aproveitadores que sempre aparecem nessas ocasiões.

Nas redes sociais o caminho muitas vezes parece ser inverso e a estupidez parece se reproduzir quanto mais longe a opinião estiver do fato real. A opinião não precisa nem mesmo ser solidária.

É nesse momento que militantes políticos sem escrúpulos se aproveitam para capitalizar a dor dos outros, como aconteceu com a tentativa de imputar a propriedade da boate Kiss a um deputado do PT, ou a acusação de que a solidariedade da presidente e do prefeito não seriam importantes para mitigar a dor das famílias.

É nesse momento que veículos de comunicação aproveitam a comoção social para aumentar a audiência e passam da informação ao sensacionalismo que vende.

É nesse momento que advogados que vivem de oferecer caminhos pelos labiritos proteladores da justiça fazem pose de paladinos e passam a se apresentar na TV como críticos de um estado que não funciona e de leis que nunca são aplicadas.

É nesse momento que a hipocrisia mata ainda mais.

É nesse momento que todos esquecem que donos de baladas e baladeiros comemoram o sucesso das festas com a superlotação de corpos e a falta generalizada de estrutura. Esquecem que os seguranças estão ali para proteger o patrimônio da casa e raramente para proteger clientes.

Esquecem que clientes são tratados como gado em bretes e filas que podem durar HORAS de espera que dão direito a comandas, seguranças mal encarados, banheiros lotados e empurrões. Esquecem que depois dali todos saem de carro e o drama continua pelas ruas da cidade sob o efeito do álcool.

Enfrentar tragédias coletivas é uma experiência inerente à condição humana porque não temos o controle sobre a natureza e muito menos sobre a vida em sociedade.

A tragédia de Santa Maria foi fruto de uma estupidez que aconteceu numa casa superlotada e há uma infinidade de superlotações diárias e acidentes estúpidos no Brasil. No trânsito, metrô, na periferia das grandes cidades, nas “melhores” boates e baladas…

Ainda que separado por quilômetros de distância tenho a impressão de que o atendimento às vítimas e toda a solidariedade às famílias foi e segue sendo prestado pelo poder público e por toda a sociedade de Santa Maria que deu provas de inestimável e brava reação.

Porém, mais do que uma nova cobertura midiática nos moldes do mensalão e que busque culpados dolosos ou o linchamento dos donos da boate, fica a sensação de que o mais importante neste momento é afastar a estupidez capaz de acender o pavio tanto dentro da próxima boate lotada quanto dentro de um veículo de comunicação, e que tudo isso termine em linchamento.

E combater a estupidez de nossa própria timeline.