Um golpe em que o Brasil saiu pela culatra

Ao longo dos últimos quatro anos o Brasil viveu uma tragédia política. A ex-presidenta Dilma Roussef foi afastada por um impeachment sem ter cometido crime de responsabilidade. Temer pode sair direto do Palácio do Planalto para a prisão por atos de corrupção e enriquecimento ilícito praticados inclusive dentro do palácio. O maior líder popular do país é preso político e o líder da direita foi esfaqueado em rua pública depois de defender abertamente a violência e o armamento da população.

No cenário econômico boa parte da elite empresarial e das diretorias executivas das principais empresas brasileiras foi afastada por corrupção. Petrobras, Odebrecht, OAS, Andrade e Gutierrez, JBS, CBF, Traffic, empresas de Eike Batista, entre dezenas de outras também envolvidas em esquemas de sonegação como Globo, RBS e Banco Safra… Nesse processo ainda podemos incluir a prisão do Almirante Othon que chefiava o programa do submarino nuclear brasileiro, principal projeto militar do país, e a venda da Embraer para a Boeing, além da entrega de recursos naturais para empresas estrangeiras. Foi um verdadeiro desmanche e imagine os efeitos disso em todas as cadeias produtivas que envolvem essas empresas como fornecedores, logística e também vendas e propaganda.

No palco jurídico o STF além de permitir o golpe parlamentar inovou com o “Trânsito em Julgado de Segunda Instância” com prazo de validade apenas para impedir a candidatura de Lula. Alguns ministros passaram a votar contra suas convicções para formar novas maiorias, como fez Rosa Weber, enquanto Barroso reivindicou a salvação moral da pátria e Gilmar Mendes começou a soltar réus quando viu a Lava Jato chegar perto de sua turma. Ao fim da presidência de Carmen Lúcia desobedeceram uma decisão do Comitê dos Direitos Humanos da ONU sobre o caso de Lula e ainda votaram um aumento salarial para si próprios. Para iniciar a gestão de Tóffoli, que levou um general para seu gabinete, Fux inaugurou a censura.

O funcionário público que deu início a esse processo kafkiano foi Sérgio Moro, um juiz provinciano e de primeira instância que num raciocínio simplório concluiu que se Lula é o maior líder político do país deve ser responsabilizado como o grande chefe de uma quadrilha. Para comprovar essa tese aceitou como prova um apartamento no Guarujá que apenas o dono da construtora, um réu confesso, disse que seria de Lula. Trata-se de uma prova fraca que normalmente seria barrada em tribunais superiores até porque legalmente o apartamento sempre esteve em nome da própria construtora e nada e nem ninguém mais confirmam a acusação. Mas o processo foi esgarçado até o limite para se transformar numa peça de perseguição política e servir à narrativa diária dos jornais e TVs nos últimos quatro anos. O problema é que ninguém mais no mundo acredita nessa patacuada do tríplex.

Para completar o quadro de desmonte, nas redes sociais as estratégias de fakenews alcançaram gente que acreditou que a Petrobras estava quebrada; que os médicos cubanos eram guerrilheiros; que o filho de Lula era dono da JBS; que a Folha de São Paulo e George Soros são comunistas; que o Brasil patrocinava ditaduras e pelo que vemos no segundo turno será ainda pior. Instalou-se um clima de falsidade e ódio no país cuja única finalidade é corroer a base da democracia e da confiança na sociedade.

Bolsonaro é um ignorante orgulhoso de sua ignorância e que iniciou sua carreira sabotando o exército só que ao invés de ser expulso por seus superiores foi mimado e reformado. Agora seu objetivo é sabotar o Brasil e junto com seu vice já falam abertamente em golpe militar e em não respeitar o resultado das eleições em caso de derrota. Além de fuzilamentos e apoio à tortura querem um estado autoritário contra os direitos do povo e servil ao capital improdutivo. O nome disso é neoliberalismo e é a mesma ideologia econômica que acaba de quebrar a Argentina provocando subida do dólar, desemprego e inflação. Essa é a parte “inteligente” de sua campanha.

Estas eleições se transformaram numa aberração moral e qualquer um que seja eleito começará a ser sabotado no primeiro dia de governo assim como fizeram com Dilma Roussef. Supondo que as pesquisas estejam certas neste momento nem Ciro com seus 10% ou Haddad com 20% e muito menos Bolsonaro com 30% pacificarão o Brasil. O País foi envenenado para entrar em conflito consigo próprio e as instituições colapsaram ou estão conspirando sob esse efeito.

Se houver segundo turno será outra eleição e é possível que se forme uma frente antifascista em defesa da democracia. Vai ser lindo derrotar o fascismo no voto mas o estrago ao Brasil já foi feito e se os votos não valeram nas última eleições por que deveríamos acreditar que valeriam agora?

É uma situação bizarra e como todos sabemos daqui a pouco talvez o monstro do fascismo volte a se fazer de sonso e dormirá no colo da classe média como se nada tivesse acontecido desde que os generais garantam a pensão das filhas, seus privilégios e também que não sejam responsabilizados por nada do que fizeram e nem a cachorrada que lideram. Ou pode ser tudo bem pior.

Mas quem você acha que vai pagar essa conta?

El Brujo Garcia

 

VELHAS CANÇÕES QUE CABEM NUM BOLSO FURADO é uma compilação de canções compostas numa guitarra callejera pelas ruas de Santiago, São Paulo e Porto Alegre, entre 1985 e 1992. Outras foram lançadas nos anos noventa em fitas K7, pela banda Lorenzo y La Nota Falsa, mas maioria é inédita e faz parte do repertório que venho tocando ao piano e soltando aos poucos junto com outros experimentos. Nessa versão de Luzes Limosines quem toca violino é Joãocaré.

 

Segundo jornalistas e amigos que cobriam a cena do rock independente dos anos noventa eu era um músico estranho. Pelo menos é isso que descrevem algumas reportagens quando o Vulgo Valentin ou Lorenzo y La Nota Falsa dividiam o palco com Smog Fog e Aristóteles de Ananias Jr e, apesar de bem diferentes umas das outras, formávamos uma espécie de anti-cena do rock gaúcho na qual ninguém estava muito preocupado em fazer sucesso. O mundo estranho em que vivíamos deve ter durado uns quatro anos e foi ali que comecei a chamar minha música de punkjazz porque gostava de improvisar no palco e fazia um tributo aos beats de fim de século. Algumas canções tocaram em rádios de Porto Alegre e fizemos apresentações no BHRIF, em BH, e em São Paulo que naquela época eram quase outro país. Éramos bem livres trocando fitas K7 e fanzines pelo correio e Leyla é a canção que melhor representa essa essa interzona pré-mp3 e pós-vinil. Pré-digital…

 

Também foi mais ou menos naqueles dias que comecei a fazer vídeos e conheci o Wander Wildner que estava começando a carreira solo depois de tocar nos Replicantes. Ele recém tinha gravado uma demo de Bebendo Vinho e precisava de um diretor para o videoclipe e dois dias depois estávamos gravando nas ruas de uma madrugada fria do inverno gaúcho aquele que se tornaria um hino de várias torcidas. Desculpe o plágio Mastercard mas isso sim é que não tem preço!

Lembrei disso porque alguns dias atrás o Wander passou em casa carregado de cervejas artesanais e gravamos essa versão de Devolve, da banda Nadahype, que ele andou tocando numa temporada paulistana de bares e inferninhos. Wander e sua mochila de novidades, além de inspirar este post, me deixou pensando que o mundo pode ter dado uma infinidade de voltas nessa vida mas os fanzines, K7’s e canções com os amigos seguem sendo a melhor e mais livre narrativa dessa história. Confere aí!

 

WANDER WILDNER

 

 

O jornalismo piano – reeditorial

Durante a consumação do mais bagaceiro dos golpes o que mais me deixa chocado é a inexistência no País de um jornalismo liberal que consiga dialogar com toda sociedade incluindo a esquerda democrática das Américas e do Mundo. Tudo virou propaganda e o Brasil conseguiu uma impensável unidade de Chomsky a Ron Paul, do NYTimes ao Guardian ou a Mídia Ninja, todos estão chocados com o golpe dos velhos políticos corruptos contra a presidente eleita democraticamente. Obviamente do Brasil se esperava mais além de Lula, Copa e Olimpíadas e a frustração só aumenta ao constatar que para análises econômicas dispomos apenas de colunistas e panfletos neoliberais que resultam quase na negação até mesmo do liberalismo e da democracia liberal. Daí fodeu e mais do que na economia trata-se de um tombo gigante e uma espécie de terra arrasada também no terreno de Gutemberg. É uma vergonha mas a reportagem restou solitária na Piauí e não há mais espaço para diálogos contemporâneos nas outras redações e minha crítica é de leitor mesmo. Todos os esforços corporativos parecem ser apenas na busca pelo que restou de anúncios de varejo ou para servir ao departamento financeiro como se esse fosse o único destino da humanidade. O Brasil precisa de muito mais do que isso e a internet ainda trouxe o caos e a disrupção genealizada para uma nova ordem que já nasce caótica.

 

Por que se chama Piano

Pra quem não sabe este site (punkjazz.tv) é uma plataforma livre onde desde 1998 experimento programação em html punk e publicação jazz de textos, música e vídeos experimentais. É onde vivo minha fábula hacker… É uma espécie de caderno de esboços e artesanato de pixels e bites sobre quase tudo aquilo que não tem preço

 

 

Agenda de Junho

Logo_AGENDA_El_BrujoDia 26 de Junho vou tocar algumas canções junto com Wander Wildner, Jimi Joe e Flu, na Casa do Mancha, e tomara que seja uma bagunça memorável e ao final todos fazem um punkjazz!

Na Quinta-feira, 30/06, vai ter Punkjazz El Brujo Garcia com a formação de Leandro Conejo na guitarra, Guilherme Pacola na bateria, Flu no baixo e eu no violão, voz e piano. Vamos fazer medleys e improvisos sobre as Velhas Canções que Cabem num Bolso Furado. Marca na agenda por que vai ser fera!